“Tudo é projeto” – um tributo à Paulo Mendes da Rocha

O longa-metragem “Tudo é Projeto”, exibido no último 26 março no Cine Jardins, destaca a vida e a obra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. O evento foi  uma ação do Instituto de Arquitetos do Brasil – ES com patrocínio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/ES) e do Sindarq, e contou com a presença das diretoras do longa-metragem, Joana Mendes da Rocha – filha de Paulo Mendes – e Patricia Rubano. Após a exibição do longa, houve um debate com o público mediado pela escritora e arquiteta Eliana Kuster.

Eduardo Pasquinelli, as diretoras Patricia Rubano e Joana Mendes da Rocha, e Roberta Toledo. Foto: Cloves Louzada
Patricia Rubano, Eliana Kuster, Arlindo Villaschi e Joana Mendes da Rocha. Foto: Cloves Louzada

Paulo Mendes da Rocha é um dos mais renomados arquitetos do mundo. Nascido em Vitória, este ano completará 90 anos. Pertence à geração de arquitetos modernistas liderada por João Vilanova Artigas. Em seus projetos utiliza o concreto armado aparente e grandes espaços abertos, estruturas racionais  de elementos construtivos com belas composições de pilares, vigas e lajes, entre outros elementos que viriam a caracterizar a “Escola Paulista”. Alguns críticos da arquitetura afirmam a influência do movimento “Brutalista” europeu nos projetos de Mendes da Rocha. Assume posição de destaque na arquitetura contemporânea recebendo vários prêmios, dentre os quais se destacam o Prêmio Mies Van  pelo projeto de reforma da Pinacoteca do Estado de São Paulo (2001) e o Prêmio Pritzker em 2006.

O diálogo constante entre entrevistado/pai e entrevistadora/filha é o fio condutor do filme, que revisita grande parte das obras do arquiteto e do pensamento na arte de projetar com pitadas filosóficas sobre a vida. Com recorrente referência ao pai engenheiro e o reconhecimento da sua escolha profissional pela influencia das obras de engenharia quando o acompanhava em portos e avistava os navios,  condição que determinou seu apreço pelas grandes estruturas e pelo mar.

Das inúmeras residências que projetou, especialmente na época em que foi cassado na ditadura militar, destaca-se a Casa Butantã (1964), projetada para moradia de sua família, quase um manifesto sobre uma nova maneira de morar. A concepção radical e inovadora  rompe com o privado nas relações cotidianas e torna o projeto um verdadeiro ensaio lúdico. Assim sucederam-se inúmeras obras públicas no Brasil e no exterior, tais como Museu Brasileiro de Escultura(Mube/SP), Pavilhão Internacional de Osaka, Praça do Patriarca (SP), Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu Nacional dos Coches (Lisboa), dentre outras. Das últimas obras do arquiteto elaborada recentemente para cidade de Vitória é o Museu Cais das Artes ( 2015).

Cais das Artes. Foto: Cloves Louzada 
O público no Jardins. Foto: Cloves Louzada

O público se envolveu com os projetos e com as belas palavras ditas como ensinamentos de um mestre que fez história, e que deve ser contada  e perpassada de geração em geração. Considero que seja este o ponto focal das diretoras na ideia de realizar o filme. E fecho o texto com as palavras contundentes e o olhar sensível de Eliana Kuster ao final da sessão de estreia em Vitóra:

“Augusto de Campos, nosso famoso poeta concretista, tem um espetáculo nomeado “poesia é risco”. Poesia é risco porque deriva do traço riscado no papel, mas também é risco porque produzi-la é arriscar-se no mundo. Tirar algo de si e colocar em relação ao outro é sempre arriscado. Seja para fazer poesia ou filosofia, pensar sobre a vida é arriscar-se. Como afirmou Guimarães Rosa, citado por Paulo Mendes da Rocha no documentário a seu respeito, “viver é perigoso”. Viver pensando sobre o mundo, mais perigoso ainda.

E o que nós vemos nesse filme é um homem que atua no mundo porque pensa sobre ele. Paulo Mendes da Rocha seria algo como um “arquiteto filósofo” – ou um “filósofo arquiteto”- que, com suas obras, transforma, como ele próprio define, ideias em coisas. Paulo afirma: “não consigo falar de arquitetura sem falar dessas coisas” (sendo essas coisas a arte, o mundo, os homens, a cidade e a sociedade). Eu arriscaria completar: ele talvez não consiga fazer arquitetura sem pensar nessas coisas.

Apenas vindo de alguém com uma absoluta capacidade de empatia com o ser humano veríamos uma frase que define a arquitetura como algo que deve “amparar a imprevisibilidade da vida”. Ela é, assim, algo que pode nos abrigar das eventuais dores do dia a dia, um refúgio para o qual voltamos após sermos moídos pelo mundo. A poesia contida nessa definição é algo que, em um panorama ideal, seria o motor das ações de todos nós, arquitetos. Afetados pelo outro, atravessados pelas frestas que conseguimos abrir em nossas certezas para que a alteridade passe, a nossa produção de arquitetura será, certamente, mais íntegra, mais ética, mais empática. Como o próprio Paulo afirma: “é preciso inventarmos, inventarmos, para fazermos sempre o mesmo de maneiras diferentes”. Na arquitetura e na vida.”                  Eliana Kuster*

*Arquiteta, professora titular do Instituto Federal do Espírito Santo, doutora em planejamento urbano.

Agradecimento: RF Assessoria e Comunicação e à Eliana Kuster.

Imagem destacada do post: Divulgação do longa-metragem “Tudo é projeto”

Edição:  Isabella Muniz

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here