Reflexão para 2018

Atualmente, estamos sempre questionando, que pertencimento têm as coisas: são globais, locais, sociais ou naturais? A temporalidade moderna exige que as coisas andem na mesma velocidade e sejam substituídas por outras igualmente bem alinhadas para que o tempo se torne um fluxo. Os conflitos se multiplicam com a afobação do caminhar no ritmo frenético da modernidade, mas poderíamos dizer que a passagem moderna do tempo, nada mais é que uma forma particular de historicidade, cujos reflexos se rebatem sobre o território de forma veloz e agressiva. Os “modernos” têm a sensação da flecha irreversível do tempo, e que para isso, é preciso romper com o passado. Entretanto, o passado permanece, de uma forma de outra, seja no imaginário social, seja em um objeto, uma pedra, em um canto qualquer.

Diante desse paradoxo, diante dessa relação da produção espaço-temporal que se conecta com a relação do eu /outro, a questão que se coloca é como podemos reintroduzir o local, a “diferença”, frente à homogeneização e a multiplicação de redes, e ao mesmo tempo, valorizarmos o nosso sítio, as nossas paisagens com suas respectivas manifestações culturais e, até mesmo, nossa saúde e equilíbrio emocional?

Vale voltarmos ao sentido do lugar, numa perspectiva mais ampla, o que significa dizer que no lugar se vive, se realiza o cotidiano, revelando-se em suas múltiplas dimensões, e é aí que se ganha expressão factível e concreta. Viver a rua, o bairro, a circunvizinhança, onde existe a possibilidade de um olhar fraterno, os “olhos que vigiam” o vai- vem dos passantes, a delicadeza de um gesto ao amanhecer, um bate-papo descompromissado, tudo aquilo que nos faz tão bem e nos traz aquela sensação de conforto e segurança. Além disso, a potencialidade e a riqueza de uma região com a exuberância de suas águas, mangue e mar, fauna e flora remanescentes, nos permitem pensar inúmeras possibilidades de estabelecer conexões através da tríade cidadão-identidade-lugar em espaço social ampliado, base da reprodução da vida, não somente pela sua morfologia, mas por um conjunto de sentidos, impressos pela vivência cotidiana.

A questão de equilibrar os paradoxos urbanos, parece residir mais na necessidade do fortalecimento de ações cotidianas prazerosas e de estratégias mais eficazes da participação cidadã nos destinos das cidades, de modo que possam exercer um controle maior sobre ações no espaço social. Esta talvez seja a base para a construção de um desenvolvimento mais equitativo.

Para 2018, não podemos ser meros espectadores passivos, mas cúmplices ativos de mudanças que se descortinam no tempo e na paisagem capixaba. Uma cumplicidade que impõe estabelecer o sentido de conexão entre cidadão, lugar e o território. A subjetividade é fundamental na medida em que o corpo habita e vivencia o espaço. Que em 2018 ainda perdure o “olhar” dos artistas, dos viajantes, dos fotógrafos e dos poetas no cotidiano vivido, enfim, um olhar comum que estabeleça vínculos de afetividade com o território. Assim, teremos mais chance de resgatar o “sensível” de nossa história individual e coletiva.

Feliz 2018, mais próspero e fraterno!

Por Isabella Muniz em 27/12/2018 . Foto: Paulo Barbosa

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here