No Brasil, o déficit habitacional está em torno de 6 milhões de moradias, e no Espírito Santo, o deficit é de 109.535 moradias (2015), segundo a Fundação João Pinheiro (FJP). A metodologia para cálculo do deficit reside no incremento ou reposição de moradias, famílias ou pessoas que residem em domicílios excessivamente adensados, ou arcam com ônus excessivo por aluguel e até mesmo na condição de coabitação (mais de 1 família).   e nas deficiências de moradia, ou seja, as habitações precárias.  Esta última condição está presente em grande parte das moradias da população de baixa renda (até 3 salários mínimos).

Na perspectiva de oferecer serviços de assistência técnica gratuita para reformas de moradias precárias e ao mesmo tempo capacitar profissionais e estudantes de Arquitetura,  professores e alunos vinculados ao Deptº de Arquitetura da Universidade de Vila Velha (UVV) elaboraram o projeto “Adote uma Casa”. Uma iniciativa louvável, posto que os arquitetos ao ingressarem no mercado de trabalho encontram muita restrição para atuarem na Habitação Social, pois não existem muitos programas e/ou políticas públicas voltadas para esta causa, que possam realizar ampla contratação de mão de obra qualificada para o atendimento a essa população.  Portanto, o cidadesepassagens, relata aqui esta rica experiência, anteriormente divulgada pelo CAU/BR*, conforme segue.

A ideia do projeto de extensão é prestar assistência técnica para famílias em casas com problemas em três aspectos: acessibilidade, conforto térmico e salubridade. “As moradias que atendemos até agora tinham graves questões nesses três eixos”, conta o professor de Arquitetura e Urbanismo Alexandre Nicolau, que coordena o Adote uma Casa em conjunto com a colega Andreia Fernandes. Além dos docentes, a equipe fixa do projeto conta seis estudantes bolsistas: quatro de Arquitetura e Urbanismo e dois de Engenharia Civil. Outros 20 alunos atuam indiretamente: a cada semana, um grupo diferente participa de visitas às obras, estudos técnicos, elaboração dos projetos ou de suporte aos moradores.

Os profs. Alexandre Nicolau (esq.) e Andreia Fernandes (centro) entre alunos do projeto.

De acordo com o professor Alexandre Nicolau, a ideia do projeto surgiu a partir de discussões acadêmicas sobre os programas de moradia social no país. “Observamos que a maioria esmagadora das políticas públicas relacionadas à habitação social foca na construção de novas unidades. Pouco ou quase nada se destina a áreas precárias consolidadas. E essas áreas concentram grande parte das populações urbanas e conformam um déficit qualitativo: as pessoas possuem casas, mas sem o mínimo de habitabilidade”.

Em caráter experimental, o projeto já reformou três moradias – a quarta casa, da dona de casa Jociara de Jesus, já está em andamento neste mês de junho. Nas três moradias já reformadas, além da assistência técnica, o Adote uma Casa conseguiu os materiais e a mão de obra por meio de parcerias e doações. “São famílias que realmente não teriam condições”, explica o coordenador do projeto.

Para ser atendida pelo projeto, a família precisa obedecer aos critérios da Lei de Assistência Técnica (Lei 11.888/2008), como renda total de até três salários mínimos. Além disso, a casa não pode ser alugada e deve estar em uma área definida pelo Plano Diretor Municipal como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS).

“Vai funcionar assim: a pessoa vai poder nos ligar e marcar o dia para ir até lá para fazermos um cadastro e marcar a visita à casa. Pessoalmente, avaliaremos o perfil, o comportamento dos moradores e mediremos o imóvel. Em seguida faremos os modelos, o mapa de danos, o estudo das soluções e as plantas. Depois voltamos ao morador e ele vai aprovar ou não. Podemos também ajudar na escolha de materiais, na indicação de mão de obra e acompanhar a execução”.

Para 2018, o projeto está investindo em duas novas frentes de trabalho para atender a mais pessoas. Uma delas é a inauguração de um posto avançado no Bairro São José, em uma área pobre de Vitória – Vila Velha e a capital do Espírito Santo são dividias apenas por uma ponte. A outra nova frente de trabalho do Adote uma Casa para 2018 é o “Adote um Ambiente”. “Vamos tentar atrelar cada vez mais arquitetos e engenheiros no projeto. Então no “Adote um Ambiente” convidamos os profissionais para conhecer casas que precisam de reforma. Caso se disponham, escolhem um ambiente e se comprometem a entrega-lo pronto”, explica a professora Andreia Fernandes.

MATERIAIS E MÃO DE OBRA

O Adote uma Casa funciona por meio de parcerias. A própria Universidade Vila Velha oferece a estrutura física, o transporte dos estudantes e a assistência dos professores. “Também temos parcerias com o Movimento Vila Velha, conhecido como Movive, e com a Fundação Beneficente da Praia do Canto. É por meio desses ONGs que recebemos doações em dinheiro para o projeto”, explica Alexandre Nicolau.

Grupo do projeto e as parcerias
Visita à empresa de material de construção

Os materiais de construção são recebidos de empresas. “Hoje temos cinco parcerias – duas lojas, uma fábrica de tintas, uma de vidros, uma de aço e uma escola de informática que têm cursos de programas de Arquitetura. E estamos em tratativas com outras. É importante destacar que 100% das doações vão para as obras”, destaca a professora Andreia Fernandes.

PARCERIAS

Para a docente Andreia Fernandes, é a parceria com as empresas que está possibilitando o crescimento do Adote uma Casa. “Trabalhar com a parceria da iniciativa privada é o grande passo que o projeto está dando. Queremos trazer profissionais e empresas. Demos muitos telefones, mandamos muitos e-mails. Procuramos e ainda estamos procurando profissionais empresas que trabalham com a questão social”.

A segunda e a terceira reformas concluídas pelo Adote uma Casa foram em grande parte financiadas por um edital de uma empresa fabricante de aço. “Recebemos cerca de 7 mil reais e tivemos à disposição a mão de obra de alguns funcionários da empresa. Conseguimos reformar as duas casas com esses recursos”, conta Andreia.

Além de elaborarem o projeto, os estudantes participam da execução, inclusive como mão de obra. “Tenho alunos que já lixaram porta, já pintaram parede. Eles realmente participam de todas as etapas”

PRIMEIRA CASA REFORMADA

A primeira moradia reformada pelo projeto foi a da dona de casa Maria de Lourdes Costa. “Ela vivia sozinha em uma casa que não tinha salubridade e conforto nenhum”, conta o coordenador do projeto.

Fomos até o local, fizemos fotos, entrevistas, medimos. Levantamos as coisas que ela tinha na casa e os materiais que poderiam ser reaproveitados. Ela mora em um espaço muito pequeno. A casa tem ventilação apenas frontal, era também muito escura. Foi autoconstruída. Tinha muito mofo. Ela tinha vários problemas respiratórios agravados por isso. Colhemos todas as informações, sentamos, pensamos em propostas com nossos professores”, relata a estudante Lucilene Buss, ex-estagiária e colaboradora do projeto.

Mãe e filha que dividem o mesmo lote foram a segunda e terceira casas que receberam assistência do projeto. Carmosina e Juvenil Bispo Xavier precisaram de reformas principalmente no banheiro e na área de serviço. “Na região tem muitos alagamentos por causa do transbordo do rio. E o telhado caía nessa área comum, trazendo ainda mais água pra dentro. Nós invertemos o telhado para a rua. Colocamos uma telha translúcida para iluminar”, relata Alexandre Nicolau. A obra ficou em R$ 7.931,25, também arrecadados com doações.

MERCADO HABITAÇÃO SOCIAL

Para a professora Andreia Fernandes, a Arquitetura Social é um mercado com potencial que ainda precisa ser explorado. “Essa área tem crescido muito no Espírito Santo e no Brasil. A questão é a inserção do profissional nesse mercado – é difícil. É imprescindível a participação e a presença dos líderes comunitários e das prefeiturasMuitos arquitetos não se inserem nessa área porque tem medo, não conhecem as áreas, não têm relações com esses locais”.

Na visão dela, o primeiro passo é a comunicação com esses moradores para que eles entendam o trabalho e a importância do arquiteto e urbanista. “Muitos lá na comunidade que a gente estava nem sabem o papel do arquiteto. É preciso falar com essas pessoas. Divulgar”.

Andreia Fernandes acredita que os estudantes que passam pelo Adote uma Casa adquirem uma visão muito mais clara e realista da Arquitetura Social. “Alguns não sabiam nem da existência daquele nível de problema. Uma das casas reformadas não tinha nem descarga. Costumo dizer para a minha equipe que eles serão outros profissionais, porque trabalhar com restrição de custos é muito mais difícil. É preciso estudar para propor especificações e modos de construir em função de restrições econômicas e estruturais”.

Para estudante Lucilene Buss, ex-estagiária e colaboradora do projeto, o Adote uma Casa coloca os estudantes a par de outra perspectiva em relação à Arquitetura em geral. “Essa experiência foi muito enriquecedora para mim. No curso, temos contato apenas com Arquitetura contemporânea, com modernidade, com classes sociais mais altas. E esse projeto presta serviço a uma população muito desfavorecida. Ela não tem nenhum acesso a arquitetos e engenheiros”.

No posto avançado, serão atendidas famílias que não dependem do Adote uma Casa para conseguir os materiais e construção e a mão de obra. “Queremos sair de uma casa por ano para pelo menos 10”, planeja Alexandre Nicolau. O escritório vai funcionar em uma sala cedida pela Fundação Beneficente da Praia do Canto, que abriga diversas iniciativas sociais na região. “O espaço já está em reforma e esperamos começar a utilizá-lo em junho. Algumas pessoas da comunidade já nos procuraram e inclusive já iniciamos os atendimentos de forma improvisada”, conta o professor. “Estaremos alguns dias da semana lá, outros no Núcleo de Estudos e Práticas da UVV, que abriga o projeto”.

Contato: O projeto Adote uma Casa funciona no Núcleo de Estudos e Práticas da Universidade Vila Velha (UVV), na região metropolitana de Vitória, Espírito Santo. O campus fica na Avenida Comissário José Dantas de Melo, nº 21, CEP 29102-920, Bairro Boa Vista. Para falar com os professores Alexandre Nicolau e Andreia Fernandes, é possível enviar e-mail para nep.uvv@gmail.com ou ligar para (27) 3421-2066. Clique aqui para acessar o site do projeto.

* Texto produzido pelo jornalista Emerson Fraga e publicado no site do CAU /BR, no seguinte endereço: http://www.caubr.gov.br/arquitetura-social-adote-uma-casa/

** Todas as imagens foram gentilmente cedidas pelo projeto “Adote uma casa”.

Edição: Isabella Muniz

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