Em contextos sociais e geográficos completamente diferentes, a pergunta é: Os jovens russos teriam algo em comum com os jovens brasileiros? Diria que sim, a descrença na política. Enquanto no Brasil, 62 % dos jovens declararam a vontade de emigrar para outros países, diante da falta de oportunidades no mercado de trabalho e do desalento com a grave crise política e econômica, na Rússia da Copa do Mundo/2018, os jovens também pouco se interessam por política, e estão mais preocupados em se distrair nos bares de Moscou. Claro, que as razões para desviar os olhos da política são distintas, mesmo considerando o fato de que em ambos os contextos geográficos, o jovem contemporâneo detém mais tempo na celeridade da informação fugaz. Fazendo uma analogia simplista, os jovens brasileiros acreditam que não há mais esperança para a política no Brasil, ceifada pela corrupção histórica ao longo de décadas e introjetada desde o Brasil Colônia. Por outro lado, os jovens russos sabem que nada podem mudar quanto às regras rígidas impostas pelo governo de Putin, pelo menos por ora. Na Rússia do romance Crime e Castigo, de Dostoiévski, já no século XIX, o jovem escritor explicitava os conflitos de ordem moral e política que atormentavam seus personagens, condição que se arrasta até os dias de hoje. Por outro lado, observa-se um movimento de alternância nas maiores cidades soviéticas, como por exemplo, Moscou, que na tentativa de aliviar o passado comunista, interrompe violentamente a tradição com uma nova roupagem, a “gentrificação”. Para dar uma cara “mais limpa” e cosmopolita ao país da Copa, Moscou suprimiu as feiras livres e transformou algumas de suas áreas públicas urbanas. Cafés e galerias espalham-se pela cidade e conferem-lhe um ar de modernidade ocidental. Ou seja, a própria representação dos “não lugares”, onde tudo se assemelha e torna-se impessoal, sem uma identidade própria, conforme argumenta o ensaio do antropólogo Augé. Voltando ao contexto do Brasil, poucos são os jovens brasileiros que dispõem da tecnologia da informação e apostam na política como viés de transformação do país. Alguns de origem humilde, como Tábata e Renan, conquistaram uma trajetória ascendente através da Educação. Formados em Harvard, apostam no retorno ao Brasil para filiarem-se na política com a finalidade de lutarem por ensino público de qualidade (Folha SP)*. Este não é o pensamento da maioria dos jovens brasileiros, que se encontram na falta de perspectivas para o futuro. O descrédito na política é similar ao comportamento do jovem em Moscou, porém não com a mesma justificativa. Para os jovens moscovitas, poder pedir pizza a qualquer hora da madrugada é liberdade, mesmo cientes do cerceamento de expressão ideológica. No movimento desses jovens, que perambulam de bar em bar entre drinques exóticos, identifica-se uma certa convergência para os jovens brasileiros: “Então fingimos que está tudo bem, festejamos porque sabemos que poderia ser pior”, diz um jovem moscovita**. Aqui não se finge mais. Sabe-se. Porém, sigo acreditando que a cotidianeidade é o lugar da alienação e do desassossego, como diria Fernando Pessoa, mas também espaço de mudança e resistência.

Fontes de pesquisa:

*Folha SP: Após Harvard, jovens veem caminho na política. São Paulo, 25/06/2018

** Folha SP: Juventude desfruta de pequenas bolhas de liberdade. São paulo, 26/06/2018.

AUGÉ, Marc. Não Lugares. Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Papirus. 2004

Imagem destacada: https://www.portallitoralsul.com.br/cinco-dicas-de-passeios-em-moscou-durante-copa-do-mundo-na-russia/

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