A tragédia de Mariana completa três anos nesta presente data (05/11/2018), sem que houvesse reparação dos inúmeros e graves danos causados às comunidades e ao patrimônio físico  e socioambiental, assim como danos aos saberes imateriais e à tradição. Só no Espírito Santo foram nove municípios atingidos. As pessoas que vivem no entorno do Rio Doce estão no desalento com graves dificuldades psico-econômicas sem vislumbrar um panorama favorável a curto e médio prazo. A Universidade Federal de Minas Gerais ( UFMG) é uma das principais mentoras da pesquisa subsidiada pela  Fundação Renova, responsável pela reparação dos danos. A UFMG participa diretamente da pesquisa com 3 programas de extensão / 40 pesquisadores – com certa descentralização e autonomia. Segue alguns resultados sintéticos do diagnóstico da pesquisa:

  1. O dano da tragédia
  • Foram 7 (sete) comunidades atingidas em Mariana.
  • Heterogeneidade do território atingido: quilombolas, indígenas, pescadores, moradores urbanos.
  • Com o rompimento da Barragem houveram rupturas sociais, econômicas, espaciais, institucionais, subjetivas e conjunturais. Houve uma desterritolização com ruptura entre produtores e meios de produção. Importante ressaltar que a função social “habitar” não está somente circunscrito à moradia.  Na tragédia de Mariana, houve uma expropriação não só da propriedade privada como também sobre os saberes imateriais das populações atingidas. Este processo facilitou a expansão dos interesses hegemônicos e um maior controle territorial.

2. O processo de reparação.

  •  Houve programas de reparação e compensação dos danos.
  • Arranjo de governança se deu através da parceria público (Comitê Interfederativo) / privada (Fundação Renova) e um controle empresarial sobre o território.
  • Controle Institucional – controle sobre processos de negociação / deslegitimização das instituições estatais / emergência do terceiro setor.
  • O reconhecimento de perdas ocorreu mais para as atividades dos lavradores e dos pescadores. As “marisqueiras “ do Rio Doce, por exemplo, não foram ressarcidas. Quem é passível de ressarcimento são apenas aqueles que se justificam pela lógica da perda de renda (pescadores), portanto, uma lógica muito restritiva não contemplando outros danos psicosociais.
  •  A falta de informações e de incertezas e o protelamento das decisões afetam a saúde mental das pessoas prejudicadas. A violência não ficou restrita ao dia do desastre. Identificaram-se práticas de resistência com práticas de encontros.
  • A participação social foi de “fachada”, ou seja, as pessoas não têm direito de “escuta”, assim como não houve a garantia do protagonismo de quem realmente foi atingido.
  • Disjunção da dimensão socioeconômico da dimensão socioambiental.

 3. Controle Biopolítico

  •  Fragmentação e criminalização das resistências / estigmatização.
  • Logica de fragmentação. Destruição da moralidade e das construções sociais e culturais por intermédio do “cartão monetário”. O cartão funciona como uma espécie de “mesada” concedido para os homens, o que não deixa de ser uma estratégia de controle, instrumento de fragmentação entre os atingidos.

4. Desterritorializaçao:

  •  Deslocamentos compulsórios;
  •  Cercamentos e reclusões (relativa imobilidade);
  •  Precarização territorial;
  • Apagamentos dos rastros do crime (demolição das casas; replantio – maquiagem verde; alagamento de Bento Rodrigues com construção de um novo dique). Ressarcimento das famílias que quisessem sair de Bento Rodrigues.
  •  Espaço produção de subjetividade. Segundo a fala de uma pescadora, a tragédia do Rio Doce foi tal qual a “perda de um ente querido”.
  • Grandes empreendimentos em expansão no território atingido: Porto Norte Capixaba – Linhares

O grupo de pesquisa não consegue acompanhar a finalização dos processos e dos desfechos.  Houve uma exposição na UFMG e em Mariana a pedido dos moradores da região atingida. As ações do Observatório não estão comprometidas. O Arranjo institucional é complexo, pois muitos participadores do Renova atuam também nas comunidades, porém geram um certo receio por parte da população atingida.

Risco Social Corporativo – mapeamento das partes interessadas – mapeamento do steakholders. Quanto vale a estabilização das resistências? Por exemplo, os indígenas, que tem apoio do Funai. Estas estratégias são todas mapeadas conforme seja o grupo a ser envolvido. Há investimentos financeiros de controle às resistências.

O Movimento Social reivindica assessorias técnicas para que o processo seja autogestionado. Em Mariana, já existe este tipo de assessoria coordenado pelas cáritas de Mariana, porém é pago pela Renova.

Vale destacar as premissas metodológicas utilizadas na pesquisa da UFMG:

  • Processualidade
  • implicação
  • Produção coletiva e em rede
  • Complexificaçao (transdiciplinaridade ; transescalaridade)

Fonte: UFMG – Observatório Interinstitucional do Rio Doce. Seminário para apresentação da pesquisa. UFES /2017

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