Minha experiência no projeto de reconstrução do World Trade Center em NY

  Por Luciane Musso Maia* 
                                             

Eu mudei de Boston para Nova York em agosto de 2001, aproximadamente um mês antes dos ataques do 11 de Setembro, essa data trágica que abalou não somente os americanos, mas toda a população mundial. Neste dia, uma terça-feira, saí de casa para ir ao trabalho na empresa de arquitetura “Fox and Fowle”, situada na rua 19th em Manhattan. Assim que saí de casa, da rua onde morava no Brooklyn, vi uma estranha fumaça escura no topo de uma das Torres Gêmeas. Um rapaz apressado me aconselhou que não fosse à Manhattan. Com informações ainda um tanto quanto confusas, voltei para casa, peguei minha câmera, e retornei à rua.

Do Brooklyn, eu vi, ao lado de um grupo de pessoas incrédulas, as Torres Gêmeas desmoronando. Surreal! A única palavra que as pessoas usavam para descrever a cena que continuamos a tornar a ver por infinitas vezes nas telas de televisão. Quando liberaram a área do World Trade Center novamente para a circulação do público, por insistência de um amigo arquiteto que visitava NY, fui ver os escombros dos edifícios. As torres eram agora estruturas de aço deformadas numa paisagem angustiante. Decidi então que Downtown Manhattan deveria ser evitada a todo custo. Pensava que assim estaria evitando um possível ataque de pânico que parecia inevitável nos dias e meses que se seguiram aos ataques terroristas. Não fosse por estar apaixonada por um músico francês, razão da mudança de Boston para NY, teria voltado para o Brasil imediatamente. Mas resolvi por ficar.

O período após o episódio do 11 de Setembro foi de muita reflexão em todos os sentidos. E claro, que para arquitetos e planejadores urbanos, surgiram várias questões de como reconstruir a área respeitando a história trágica e recente, porém com uma visão de futuro que revitalizasse downtown Manhattan, até então uma área com caráter exclusivamente de centro financeiro da cidade.

Início da reconstrução – Imagem: Luciane Maia

Em 2002, foi anunciado um concurso para o master plan do qual o escritório do arquiteto  polonês Daniel Libeskind apresentou a proposta vencedora. O master plan definiu os elementos para o terreno composto das seguintes edificações: o Memorial e Museu do 11 de Setembro, o Centro de Artes Cênicas, a Estação de Trânsito e cinco torres comerciais. Cada estrutura com um arquiteto específico responsável.

Planta situação projeto WTC. Fonte: WTCProgress
Planta situação projeto WTC. Fonte: WTCProgress

O escritório americano “Skidmore, Owings and Merrill (SOM)” projetou a Torre 1, que foi finalizada e ocupada em 2014. O master plan estabeleceu a altura desse edifício de 1776 pés (541m), referência ao ano da independência dos Estados Unidos. Atualmente, a Torre 1 é considerada o edifício mais alto do hemisfério Oeste e o 6th edifício mais alto do mundo, posição um tanto quanto questionável, pois a altura considerada inclui o mastro no topo do edifício.

O inglês Norman Foster foi o arquiteto selecionado para o projeto da Torre 2, porém devido a crise econômica e a introdução de normas governamentais mais rigorosas para a indústria financeira, resultando numa menor demanda para espaços de escritórios, essa torre encontra-se ainda inacabada. Em 2014 a empresa “Silverstein Properties”, responsável pelo desenvolvimento do projeto, contratou o arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels da empresa BIG para redesenhar a torre com o objetivo de atender a uma clientela mais criativa na area de midia, abandonando assim o projeto original de Norman Foster que foi concebido para atender a indústria financeira.

Richard Rogers, também inglês é o arquiteto da Torre 3 que se encontra em fase final de construção. Fumihiko Maki do Japão, projetou a Torre 4, ocupada em 2013 em grande parte pelos escritórios do Port Authority of New York and New Jersey, os proprietários do sítio do WTC. A Torre 5 é o único projeto que ainda não foi iniciado pelas mesmas razões pelas quais a Torre 2 encontra-se inacabada. Quando todas as torres estiverem completas, existirão aproximadamente 630 mil metros quadrados de espaços de escritório na área do WTC.

Em 2003, seguindo as diretrizes do masterplan, anunciou-se o concurso para o projeto do Memorial que recebeu mais de 5000 propostas de 63 países. O jovem arquiteto americano-israelita Michael Arad foi o vencedor juntamente com o renomado paisagista americano Peter Walker, com a proposta de duas “piscinas” demarcando o local das Torres Gêmeas e aproximadamente 400 árvores de carvalho branco ao redor. O efeito do projeto do Memorial nos visitantes ao tocarem os parapeitos de bronze com os nomes inscritos das 3000 vítimas é tão profundo quanto as lâminas de água desaparecendo no fundo das piscinas de granito.

Panorâmica WTC. Foto: WTC Progress
Panorâmica WTC. Foto: WTC Progress

 O Museu 11 de Setembro, projeto da empresa norueguesa Snohetta, fica diretamente abaixo do Memorial e expõe de maneira magnífica de partes das fundações de concreto, a “slurry wall”, que protege a área de 4.45 hectares do World Trade Center das águas do Rio Hudson. Não fosse o fato de que a “slurry wall” tenha resistido ao desabamento das Torres, o resultado do ataque terrorista teria sido muito mais devastador; como por exemplo, os túneis do metrô daquela área que teriam sido submersos pelo rio.

Em 2004, o arquiteto espanhol Santiago Calatrava foi selecionado para o projeto da Estação de Trânsito, elemento fundamental na reconstrução das linhas de metrô que existiam no subsolo das Torres. Na visão de Calatrava, a estação representaria um pássaro sendo solto pelas mãos de uma criança. O “Óculos”, espaço central da estação, é resultado dessa inspiração original, cujas “asas” sofreram inúmeras revisões e cortes de orçamento. A intenção principal era de criar um espaço público tão importante e grandioso como a Grand Central Station situada na rua 42. A Estação também abriga lojas recriando o espaço comercial perdido no subsolo das torres. Críticos do projeto da Estação, que custou 4 bilhões de dólares, ou seja, o dobro do orçamento inicial e foi concluída com 8 (oito) anos de atraso, se referem ao Óculos como um shopping center glorificado.

Durante esses anos após o 11 de Setembro, eu fui me adaptando aos desafios da cidade. Profissionalmente foi uma época enriquecida pelos debates constantes e exposição a novas ideias de arquitetos em todo o mundo. Em 2007 surgiu a oportunidade para que eu fizesse parte da equipe dos arquitetos executivos no projeto da Estação de Transito na empresa “Downtown Design Partnership”. Uma empresa criada especificamente para o projeto da estação em que também fazem parte duas empresas americanas e a empresa de Santiago Calatrava. Nunca imaginei que um dia fosse parar no “olho do furacão”.

A equipe era formada por aproximadamente 200 (duzentos) profissionais entre arquitetos e engenheiros de várias especialidades. Calatrava mantinha uma equipe de arquitetos e engenheiros estruturais na DDP para certificar-se de que a sua visão e concepção do projeto, tal qual ele imaginou, fossem realizados. A relação entre essas duas equipes era por vezes um tanto quanto conflitiva. A ideia de um time em sintonia trabalhando em prol de um objetivo comum de transformar o evento trágico em um símbolo em favor de um mundo melhor, aos poucos foi se diluindo na minha cabeça.

Santiago Calatrava nunca colocou os pés na empresa DDP. Talvez no início do projeto houvesse uma atmosfera de camaradagem entre as duas equipes, mas em algum ponto do processo, a divisão entre designers e executores do projeto ficou bem clara e demarcada. Acredito que tal situação se deu principalmente devido às pressões políticas e aos prazos do cliente, ou seja, Port Authority of New York and New Jersey. O trabalho da DDP era desenvolver o projeto e coordenar todas as disciplinas para o projeto da Estação e também a coordenação com os outros edifícios integrantes do sitio. A Estação tem vários elementos do sistema mecânico de aquecimento e refrigeração, situados no subterrâneo das torres vizinhas e do complicadíssimo e quase intocável projeto do Memorial. Outro aspecto do trabalho da DDP era o de manter as convenções técnicas e gráficas do cliente e obedecer aos prazos de entrega das diversas fases do projeto.  Esse objetivo batia de frente com as constantes revisões do projeto pela equipe de Calatrava.

Eu fiz parte da equipe da DDP por um período aproximado de dois anos. Meu trabalho, assim como de todo profissional da empresa, era avançar com o projeto e a resolução de problemas técnicos para a execução final da obra. Considero que a parte mais interessante do trabalho foi a coordenação do mecanismo hidráulico para a abertura da estrutura do telhado, ou seja, refiro-me às “asas” da Estação. Esse mecanismo posteriormente foi modificado para a introdução mais econômica de um skyline que abre uma vez ao ano para marcar a data do 11 de Setembro.

Visitei as obras em várias etapas da construção e tive a oportunidade de entrar no “Óculos” no primeiro dia aberto ao público em 2016. Foi emocionante ver a expressão de encantamento estampado no rosto das pessoas que viam o espaço pela primeira vez. Muitas delas deitavam-se no chão para admirar o imenso espaço branco, vasto, alto, quase sacro. Muitas foram as batalhas no processo de planejamento e execução da obra, mas ali estava o projeto finalmente concretizado e aberto ao público, tal qual as imagens de 3D que nós profissionais, planejamos e vimos em nossas telas de computador.

"Asas" do Óculos. Foto: Luciane Maia
“Asas” do Óculos. Fotos: WTC Progress
Interior Óculos. Foto: Luciane
Óculos. Foto: Luciane Maia
Óculos. Foto: WTC Progress

Devido à importância política da área e o significado da obra no sentido de recuperar o orgulho americano e, acima de tudo, dos cidadãos nova-iorquinos, vale dizer que foi proposital a escolha da equipe de arquitetos e engenheiros representada por profissionais de várias nacionalidades e religiões distintas: Americanos, espanhóis, israelenses, palestinos, chineses, coreanos, indianos, egípcios e tantas outras nacionalidades, incluindo eu, brasileira. O espírito multicultural e cosmopolita de Nova York está bem representado na reconstrução de uma área destruída pela rivalidade de ideologias e crenças.

O meu envolvimento na área do WTC parece interminável. De 2011 a 2016, trabalhei com paisagistas na concepção e construção do projeto do parque elevado situado acima do Centro de Segurança de Veículos, o Liberty Park. Neste parque, encontra-se hoje a escultura “A Esfera” que ficava situado na praça entre as Torres Gêmeas e que apesar de danificada, sobreviveu ao desabamento dos edifícios. O Liberty Park também foi escolhido como o sítio para a reconstrução da Igreja Ortodoxa Grega St. Nicholas destruída nos ataques do 11 de Setembro. A nova igreja é também projeto de Santiago Calatrava.

A Esfera. Fotos: Luciane Maia
A Esfera. Fotos: Luciane Maia
Cobertura - Óculos. Foto: Luciane Maia
Cobertura – Óculos . Foto: WTC

Em 2017, voltei a trabalhar na empresa DDP, agora em um projeto cujo objetivo é proteger a estação de outro risco, o risco das enchentes provocadas por furacões. Em 2012 o furacão Sandy alagou o subsolo de todo o complexo do WTC. Tanto os ataques de 11 de Setembro de 2001 quanto as enchentes de 2012, foram eventos transformadores nos códigos de construção da cidade New York. Para mim, tem sido uma experiência também transformadora e, passados dez anos, ainda me encontro no olho do furacão. Com carteirinha de entrada oficial.

Nota sobre a autora*: Luciane Musso Maia nasceu em Vitória, ES, É arquiteta formada pela UFES e licenciada no estado de Nova York. Luciane reside nos Estados Unidos há 30 anos, mora no Brooklyn / NY desde de 2001 e atualmente trabalha para a empresa AECOM.

Colaboração e revisão: Isabella Muniz

 

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito legal ver sua experiência e saber que tem pedacinho de capixaba trabalhando na reconstrução. No 11 de setembro eu estava na SEMMAM da PMV na equipe que estava elaborando o zoneamento ambiental de Vitória, em conjunto com o PDU. Todos foram para a telinha ver o que era.

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