Ao ingressar na pós-graduação da FAU/USP em 2001, lembro-me bem da afirmação
da então diretora da instituição, Profª Drª Ermínia Maricato, de que a pós-graduação
é sempre um processo doloroso e solitário. Hei de concordar, porém sem antes
afirmar que é muito gratificante em todos sentidos, especialmente como processo
de incorporação do conhecimento, pela troca de experiências e informações adquiridas
ao longo dos anos que lá estive. Vivenciar os espaços da FAU foi uma experiência completamente inusitada e diferente de tudo que já havia vivido. Nesse sentido, no ano em que a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) completa 70 anos, vale lembrar o inestimável apreço pelos professores, servidores e alunos, que ao longo do desenvolvimento da minha pós-graduação, tive a oportunidade do convívio, e que  somaram conhecimento e afeto. Este convívio no ambiente da FAU resulta em uma imensa admiração pela escola que se perpetua por gerações. O prédio da FAU/USP projetado pelo arquiteto Vilanova Artigas, proporciona esta possibilidade do encontro, da criatividade e da amplitude do saber, e que pela magnitude de sua espetacular arquitetura, representa bem a importância do edifício e do debate na construção das cidades.  Nesse sentido, faço questão de reportar-me à FAU/USP, reproduzindo o excelente artigo da professora Drª Raquel Rolnik*, que muito bem expressa esta importante contribuição da FAU para a formação e consolidação do pensamento da Arquitetura e do Urbanismo no Brasil. Segue o texto na íntegra*:

Na semana passada, foi inaugurada a exposição FAU 70 anos no Centro Cultural Maria Antônia que registra e celebra a trajetória da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Nela, é possível acompanhar uma linha do tempo que vai da criação da escola, em 1948, até os dias de hoje, ressaltando momentos marcantes deste percurso. A linha inicia com o período de funcionamento da escola na Vila Penteado, um palacete residencial localizado no bairro de Higienópolis, projetado no início do século XX e doado à USP nos anos 1930. Ali foi criado um curso de arquitetura e urbanismo a partir da combinação da tradição da engenharia politécnica e das belas artes. A história continua com a mudança do curso para a Cidade Universitária, em 1969, para ocupar o edifício de autoria de Vilanova Artigas que, ao mesmo tempo, era uma escola e um projeto de ensino. A linha do tempo também ressalta as reformas curriculares de 1962 e 1968, que definiram projeto pedagógico presente até os dias de hoje, no qual a arquitetura se define como espaço intelectual de convergência das artes, das humanidades e das técnicas. Esta estrutura curricular incorporou, progressivamente, e de forma pioneira o ensino do urbanismo, do desenho industrial, da programação visual e do paisagismo.

O relato também percorre os anos 1970, quando é criada a pós-graduação em arquitetura e urbanismo, cujo programa de doutorado foi o primeiro e até 1998, o único nesta área no Brasil . Os anos 1970 foram também marcados por uma intensa atividade de resistência cultural e política contra a ditadura militar – que tem na enorme fotografia do Salão Caramelo inteiramente tomado por uma assembleia estudantil seu ícone mais forte. A exposição também destaca a expansão e consolidação dos espaços de pesquisa nos anos 1980; a construção de um edifício anexo para abrigar os laboratórios de modelos e ensaios, gráfica e audiovisual, e a construção de um canteiro experimental, que, nos anos 1990, concluem não apenas o conjunto de edificações, mas também o de práticas de ensino na escola. Já neste século a criação do curso de graduação em design e, posteriormente, de sua pós-graduação, bem como a implementação do primeiro programa de residência em urbanismo e a introdução das cotas para alunos de escolas públicas, pretos, pardos e indígenas, completam esse panorama.

Acervo digital da USP
Acervo digital USP

 

 

 

 

 

 

Percorrer o espaço da exposição é entrar em contato com uma produção ampla e diversa, “da colher à cidade”, como definia Walter Gropius a proposta de ensino da Bauhaus, uma das fontes de inspiração do modelo de ensino da FAU: a busca por uma formação que permita a atuação em várias escalas e suportes. Uma formação humanista, com amplo espaço para a experimentação artística e a busca por excelência acadêmica.

Para além da produção individual de seus professores, alunos e ex-alunos – reconhecidamente profícua e diversa –, nestes 70 anos a FAU se destaca por sua contribuição fundamental à produção de conhecimento e a própria configuração dos campos da arquitetura, do urbanismo e do design brasileiros. Uma dessas contribuições, particularmente, foi a associação de uma escola, no sentido prático de um estabelecimento de ensino, com uma “escola”, corrente de pensamento dentro da arquitetura. Trata-se da chamada Escola Paulista ou Brutalista de Arquitetura Moderna, grupo de arquitetos e pensadores da arquitetura brasileira que constituiu, a partir dos anos 1950, um movimento no interior do modernismo. O prédio da FAU, projetado por Vilanova Artigas, no campus Butantã da USP, é uma das principais expressões e inspirações dessa escola.

Mas, talvez, uma das características mais relevantes da FAU seja sua enorme capacidade de renovação e reinvenção no presente. Não se trata, portanto, de um movimento “do passado”, do extinto século XX, com suas promessas de modernidade, mas de um léxico – e também, eu diria, de uma ética que se reatualiza diante dos desafios do presente.

Para além dos elementos construtivos e de linguagem, quero chamar a atenção aqui para outra característica central da Escola Paulista: a relação da arquitetura com o urbanismo ou do edifício com o lote e a cidade. A reflexão e debate sobre cidade – e seu planejamento – está presente desde o projeto inicial de criação da FAU com a proposta de organização de um Centro de Pesquisas e Estudos Urbanísticos (CEPEU), instalado em 1955 e dirigido por Anhaia Melo entre 1957 e 1961. Até o início dos anos 1970, quando foi extinto, o CEPEU mantinha um vinculo com o projeto acadêmico da escola mas também envolveu-se em assessorias diretas para municípios paulistas. A extinção do CEPEU marca o fim da existência de um escritório de planejamento urbano dentro da escola, mas de forma alguma elimina a presença da FAU nas discussões, elaboração – e implementação – de políticas públicas –e forma que sua trajetória é indissociável da história do planejamento urbano e das políticas habitacionais na cidade de São Paulo e no Brasil.

Também destaco, na trajetória da FAU, a própria constituição de um pensamento no campo do design e de seu ensino, que tem suas origens no início dos anos 1960 no Brasil, com a criação da Escola Superior de Desenho Industrial no Rio de Janeiro, mas também com a introdução dos então denominados cursos de “desenho industrial” dentro da grade curricular obrigatória na FAUUSP. Decisão estratégica tomada na reforma curricular de 1962, os professores de DI, pioneiros e autodidatas, investiram em suas próprias especializações fora do país para poder oferecer esta formação na escola.

Poderíamos apontar ainda várias outras decisões estratégicas tomadas pela escola – como a criação da sequência de paisagismo, o investimento na estruturação da pesquisa acadêmica através da organização de laboratórios e grupos de pesquisa, a incorporação de um espaço de experimentação de processos construtivos. Estes são apenas alguns elementos que não apenas mesclam a história da FAUUSP com a própria história da arquitetura, urbanismo e design brasileiros como também desafiam a septuagenária FAUUSP a se reinventar – como o fez, em diversos momentos, com a participação de docentes, discentes e funcionários, sem jamais perder sua raiz humanista, pluralista, e profundamente comprometida com a cidade e o país.”**

Raquel é urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura de Urbanismo – FAU/USP. Responsável pelo blog: https://raquelrolnik.wordpress.com/

* O texto foi publicado em 25/04/2018 no blog da Raquel Rolnik.

 ** Este tema foi assunto da “Cidade para Todos”, na Rádio USP. Postado em Coluna Rádio USPOpinião.

Imagem destacada: Marcos Santos. Edição: Isabella Muniz

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