Histórias Vividas

Sobre mim – Histórias vividas e contadas

Arquiteta por formação, nascida e criada na cidade de Vitória, orgulhosa de sua paisagem diferenciada, pude perceber na leitura do espaço, o valor do ambiente urbano. Por ter morado e vivenciado a cidade desde a mais tenra idade, acompanhei as mudanças consideráveis ocorridas na sua paisagem a partir da década de 1970, especialmente nos bairros que compõem a região da orla. No processo de pertencimento a um determinado lugar, histórias e passagens são resgatadas na minha memória difusa, onde na infância a experiência expressa pela relação corporal dos sentidos é reinventada cotidianamente e a cada momento pelas novas imagens e cenas da paisagem contemporânea da cidade de Vitória. O passado deixou traços, inscrições, escritura do tempo. Hoje, tenho o privilégio de relembrar o antigo desenho urbano e o sítio natural impregnado por inúmeras vivências cotidianas. Sensações prazerosas proporcionadas pela proximidade com a natureza exuberante – ilhas, mar, pedras – permaneceram e compuseram um referencial de vida. O vivido tem um caráter espacial local – o bairro Praia do Canto.

E assim se faz a história de vida de um cidadão, de um bairro, de uma cidade. A preocupação com o sítio natural sempre me interessou dentro do âmbito de produção e ocupação do espaço urbano. Com o tempo, pude perceber que a apropriação da cidade por seu habitante ocorre de maneira fragmentada, apresentando-se sempre como instancia interrogativa. O indivíduo participante do cotidiano urbano, muitas vezes, não apreende as mudanças que vão se dando gradativamente na paisagem e a perda de seus referenciais. Para o filósofo Heidegger o habitante de lugar só existe pelo seu enraizamento, sua adesão a um “terroi”, um lugar de origem, uma referência familiar, onde as redes de vizinhança produzem e estabelecem identidades. Testemunhar a transformação da paisagem original e peculiar do meu bairro, a Praia do Canto, de forma sistêmica e dramática, talvez tenha sido uma das inquietações que me levou a cursar Arquitetura e Urbanismo (1980/1986), curso recém-inaugurado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Iniciava-se assim uma trajetória ascendente de imersão no espaço vivido, real, ou imaginário.

A preocupação com o sítio natural sempre me interessou dentro do âmbito de produção e ocupação do espaço urbano, o que talvez justifique o interesse pelo Projeto de Revitalização do Centro de Vitória deslvolvido com mais três colegas, trabalho de graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFES (1986). O projeto teve uma ótima repercussão na sociedade e foi lançado pela gestão pública municipal, à época, pelo então prefeito Hermes Laranja. Objetivava resgatar as referências históricas e culturais do centro da cidade de Vitória e foi um exercício importante enquanto forma de aplicar o aprendizado acadêmico a um trabalho que envolveu vários setores da sociedade. Este projeto de revitalização do centro, além de pioneiro no estado, foi também o propulsor do tão sonhado projeto profissional, ou seja, fazer parte de um escritório de projetos com autonomia para pensar e projetar. Assim, juntamente com as sócias arquitetas também recém-formadas, Clemir Meneghel, Márcia Zanotti e Tânia Oliveira, demos inicio à Quadrante Arquitetura e Urbanismo, logo após nossa graduação em 1986.

Castanheiras da Av. Saturnino de Brito sem o aterro - 1970
Castanheiras da Av. Saturnino de Brito sem o aterro – 1970
A enseada do bairro Praia do Canto, hoje já não mais existe , após os sucessivos aterros hidráulicos.

Neste percurso de vida, estabeleci uma série de relações com territórios e seus habitantes, o que resultou em imaginário amplo e rico. Em 1991, casei e mudei da minha linda “Vitorinha”. A vida sempre dinâmica me levou a novas trajetórias e a conhecer novos lugares, por vezes longínquos, onde pude experimentar e viver desde pequenas cidades brasileiras como a nordestina Limoeiro do Norte (CE), à cidade paulista de Bauru (SP), assim como também a distante Andradina (SP) na divisa com o Mato Grosso do Sul, até viver na grande metrópole de São Paulo (SP). A última cidade itinerante.

A família cresceu. Em cada lugar, um pedaço da historia vivida: Gabriel (1992), Julia (1995), Luisa (1998). Era o tempo de criar filhos. Ser mãe era uma tarefa que muito me completava e ocupava o tempo. Tempo vagaroso este de cidade do interior paulista, onde os médicos eram os “doutores” das cidades, que competiam e balizavam entre si, a marca do mais novo carro lançado no mercado. Vivia aquele tempo com certa desenvoltura, adaptando-me tal como  “camaleoa” ao som das canções de Caetano, mas sempre com olhar crítico ou de certo estranhamento para tudo aquilo que era novidade. O mar estava ao longe, apenas na memória. Oportunamente conhecia cidades à beira rio, como Três Lagoas (MT) à margem do Rio Paraná, que formava pequenas enseadas de água doce, e ali nos banhávamos com as crianças. Mas nem de longe superava a saudade da água salgada do mar e do jeito descontraído de ser das pessoas que habitavam à beira mar.

Ser mãe em tempo integral durou pouco. Com crianças ainda pequeninas, Gabriel com cinco anos, Julia com três, e Luisa, a caçula com ano e meio, mudamos para a cidade de São Paulo, onde novas experiências e exigências de viver a metrópole se fizeram presentes. Havia de ser destemida, sair de casa, circular sem pensar no acaso que pudesse eventualmente insurgir no enfrentamento diário de uma metrópole grandiosa, capaz de despertar múltiplos sentimentos antagônicos. Mas dela, soube explorar o seu melhor: a cultura urbana. Lá abracei a oportunidade de incorporar novos conhecimentos ao qualificar-me com estudos intensivos na Universidade de São Paulo, onde realizei o sonho da pós-graduação obtendo título de Mestre (2005), e em seguida, o título de Doutora (2010) em Arquitetura e Urbanismo na tão aclamada FAU/USP. Foi um período intenso de muita leitura e pesquisa, cujo repertório haveria de revelar-se em teses e artigos e ficar como registro de um período áureo e fecundo. Estudar na FAU foi um  dos projetos pessoais que muito me orgulho

Outros destinos de cidades mundo afora com características peculiares fez com que vivenciasse o “banho de cultura” e o choque cultural. Nas cidades europeias, onde a arquitetura e a arte têm destaque na paisagem urbana, base para a compreensão dos diferentes tempos e movimentos da história ocidental; na África do Norte, conhecer territórios berço da civilização, países como o Egito, a Turquia (antiga Constantinopla) territórios que convergem influências do Ocidente e do Oriente, mistura de culturas distintas. Impressionou também o Marrocos. Todos aqueles arcos, ogivas, catedrais, esculturas, pinturas, arabescos, pirâmides, esfinges, cores e gestos estavam ali, vivos, reais, e ali se faziam como resgate explícito das aulas de História da Arte e da Arquitetura. Foi possível uma compreensão maior da história urbana inserida num amplo processo de produção sociocultural, onde símbolos e significados fazem parte da vida cotidiana e que são de fundamental importância para perceber  por onde caminha a humanidade.

Toda essa vivência associada aos estudos realizados, fez com que eu desenvolvesse um conhecimento mais primoroso e um olhar sensível sobre a realidade territorial urbana do país e do  estado do Espírito Santo, e claro, sobre a composição espacial da nossa Vitorinha, carinhosamente chamada pelos capixabas. Após catorze anos, o retorno à terra natal se fez em 2007. Com certa inquietação, a mudança exigiu da família novos ajustes para acomodação de sentimentos. Assim como também retomar o trabalho como servidora pública exigiu um esforço de adaptação às novas formas de relacionamento, ao mesmo tempo que impulsionou novas pesquisas com uma visão  mais estratégica de atuação poder público. A paixão pelo ato de escrever tornou-se ainda mais forte, via de comunicação com as dores e os amores, revelando-se aqui e acolá, seja em trabalhos técnicos, seja em textos de foro íntimo, artigos publicados em jornais, sites e revistas de Vitória, até pegar o gosto pelas redes sociais.