Em tempos tão difíceis, escapou-me a letra, o verso, a composição criativa. Recolhi-me. Indaguei-me sobre o que refletir. Nada me parecia interessante descrever. Incessantemente acontecem tensões que desestabilizam a calma intuitiva aparente: Pai que mata filho, filho que mata pai. Feminicídio. Corrupção. Desemprego. O mundo mudou, eu mudei. Nem sempre as mudanças são tão boas. Desalento, palavra tão presente no cotidiano vivido com tantas interrogações e perplexidades. Ignorando metáforas, mesmo que elas possam existir, desenvolvo possibilidades na composição de negociar um fato novo, onde coexistam planos, a cor, a forma, o traço, o a linha, o tempo, a luz, o sentimento. Imaginário fugidio? Fujo, sobretudo, da necessidade de negociações. Ludibrio o pensamento, procuro um fato novo, algo que   nos desloca do comum. Piso na areia. Enfim, a Lua vermelha capta o sensível. Deparo-me com sentimentos ambivalentes. Estaria à procura de Deus? Para Agostinho, a visão sensível além do olho e da coisa, é necessária a luz física, do mesmo modo, para o conhecimento intelectual, seria necessária uma luz espiritual. Esta luz, para Agostinho, vem de Deus. Para o filósofo contemporâneo Pondé, o homem cria seres imaginários, deuses e orixás, para essa fuga esmagadora do desamparo diante do mundo.  Existe uma profusão de teorias para cada indagação. Mas nada é exato. Historicamente, a verdade é produzida como exercício do poder. Interrompo o fluxo de pensamentos. Afasto-me por instantes do objeto-cidade. Há um tempo que passa e marca com a sua passagem a caducidade dos objetos e a finitude da vida. A cidade impregna sensorialmente com estímulos de toda espécie. Essas impressões, os gestos, os sentimentos não verbais com características metafóricas salientam, realçam a dimensão sígnica de mediação pela qual a cidade se faz representar por seu interlocutor, o sujeito urbano.  O sentimento de maravilhamento do mundo se contrapõe ao fragmentário. Este olhar subjetivo anseia apenas por estar no lugar onde possa se reconhecer, desviar um pouco dos objetos. Precisa-se, antes de tudo, respirar mais, sentir mais, vibrar mais. Georg Simmel (1971) em seu ensaio sobre a vida mental nas metrópoles, define o homem urbano pelas impressões e a intensificação de estímulos exteriores e interiores.  Para o autor, o homem metropolitano desenvolve uma intelectualidade que se destina a preservar a vida subjetiva contra o poder avassalador e inesperado da metrópole. Esta diferenciação do sujeito metropolitano confere-lhe uma certa atitude blasé, ou seja, o resultado do excesso de estímulos contrastantes e rápidos que embota a capacidade da pessoa de reagir. Dessa forma, somente afastando os complexos estímulos advindos da velocidade da vida moderna poderíamos tolerar seus extremos a que me referi no início do texto. Todos nós, sujeitos urbanos, precisamos desses “escapes”, reflexivos ou não, para que a rotina diária se restabeleça.

Imagem destacada: Isabella Muniz

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