Este ano a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) completa 40 anos de existência (1979/2019). Vale contar um pouquinho dessa história que muito contribuiu na formação e no desenvolvimento dos arquitetos capixabas em todas suas dimensões: profissional e humana. Participar dos primeiros anos da faculdade recém-criada foi muito gratificante em todos os sentidos, especialmente como processo de incorporação do conhecimento, pela troca de experiências e vivência da universidade ao longo dos anos pós-ditadura. Ao convívio prazeroso somaram as  batalhas dos alunos das primeiras turmas (1979/1980/1981/1882/1983) para uma melhor qualificação do curso. Criado em 1979 com apenas 20 vagas*, e posteriormente (1980), ampliado para 40 vagas, ano em que ingressei, a estrutura física e a docência ainda deixava muito a desejar. Haviam pouquíssimos professores arquitetos que realmente faziam parte do Departamento de Arquitetura. Citando os primeiros do quadro docente:  Kleber Frizzera (precursor), André Abe, Isabel Perini, e gradativamente, Roberto Simões, Eduardo Barbosa, Fernando Achiamé, Ionnie Marroquim, Romanelli. Os demais professores de disciplinas afins, invariavelmente eram cedidos por outros departamentos, tais como, o prof. Carlos Augusto Gama (Dept Engenharia), Prof Celso Perota (Ciências Sociais), o Prof. Ronaldo Barbosa (Centro de Artes). Todos eles muito nos ensinaram sobre a arte de projetar e comunicar com o edifício e a cidade. Nos anos 1980, a cidade de Vitória e municípios vizinhos urbanizavam-se de forma acelerada, a partir dos grandes projetos industriais, e à margem deles, surgiam as ocupações espontâneas, em especial, a grande  São Pedro, com 5 mil famílias vivendo em palafitas e do lixão. Com intuito de nos fazer compreender a complexidade da urbanização desigual, o Prof.Roberto Simões, a partir de uma visita guiada, nos levou a conhecer esta realidade escondida por detrás do Maciço Central. O aprendizado apenas se iniciava, à medida que saíamos de nossas “caixinhas” subjetivas, mudávamos a forma de olhar e lidar com o mundo, agora, ampliado. A criação do curso de Arquitetura veio a calhar numa época em que as cidades capixabas muito demandariam os serviços destes profissionais, até então escassos.

Vivenciar os espaços dos CEMUNIs foi uma experiência completamente inusitada e diferente de tudo que já havia vivido. O prédio projetado pelo arquiteto capixaba Marcelo Vivacqua, proporciona a possibilidade do encontro, da criatividade e da amplitude do saber, e que representava bem a importância do edifício no contexto do debate das cidades. Era um período pós-ditadura, em que as pessoas estavam ávidas por mais autonomia e expressão dos sentidos nas universidades. Assim, muitas foram as lutas, greves e movimentos para que o curso de Arquitetura alavancasse nos idos dos anos 1980.

Foto histórica com alunas da primeira turma de 1979 ao conseguirem a cessão do CEMUNI IV para o curso de Arquitetura e Urbanismo (UFES). Da esq. para direita: Da esq pra direita: Alice, Renata, Katia, Heloisa, Josiane e Claudia
Foto histórica com alunas da primeira turma de 1979 ao conseguirem a cessão do CEMUNI III para o curso de Arquitetura e Urbanismo (UFES). Da esq pra direita: Alice, Renata, Katia, Heloisa, Josiane e Claudia

À frente da criação do Centro Acadêmico dos estudantes (CA), do Cineclube da Arquitetura e Centro de Artes, estava a inegável força e presença de alunos das turmas pioneiras, citando aqui, Antonio Chalhub (diretor), Paulo Morandi, Paulo Vargas, Margarida Cuzzuol, o saudoso João Bosco, Plínio Fróes, Guilherme Santos Neves, Alice Belesa, Renata Hermanny, Heloisa Herkenhoff, Clara Luiza Miranda, Rita Vasques, Augusto Pacheco, Ana Márcia, Angela e Anlene Gomes, Rita Rocio, José Luís Almeida, Paola Botti, Vera Tâmara Ribeiro, Nina e Marta Campos, Vanderley Souza, Leila Verônica da Rocha, Tamara, Marília Gaigher, dentre outros. Em seus primeiros anos, o CA de Arquitetura fez várias manifestações performáticas, inclusive  o “enterro” simbólico do curso de Arquitetura, cujo cortejo percorreu todos os CEMUNIs até alcançar o Restaurante Universitário (RU), como forma de protesto e fins à contratação de novos professores, representava a  indignação dos alunos frente ao descaso da Reitoria. À noite, seguíamos com a festa Rock Horror no próprio CEMUNI.

Protesto e enterro simbólico do curso de Arquitetura, pela contratação de professores. Com Paola Botti no caixão, Vera Tâmara, Antônio Chalhub e João Bosco (ao fundo). Participaram também Plínio fores (Drácula) e Margarida Cuzzuol e demais alunos no cortejo. Anos 1980.Anos 1980.
Protesto e enterro simbólico do curso de Arquitetura, pela contratação de professores. Com Paola Botti no caixão, Vera Tâmara, Antônio Chalhub e João Bosco (ao fundo). Participaram também Plínio fores (Drácula) e Margarida Cuzzuol e demais alunos no cortejo. Anos 1980.

E as festas “homéricas” que organizávamos, algumas para angariar fundos para viagens a Congressos, ENEAs etc. Foram inúmeras: “Perdidos na Selva”, “Festa do Abacaxi”, “Rock Horror”, e por aí vai. A “Turma do Balão Mágico” balançou a estrutura universitária existente e foi a própria expressão da rebeldia. O lema era mais liberdade de expressão e viver os tempos de estudantes em toda sua intensidade. Sim, vivíamos a faculdade em tempo integral,  uma segunda morada, uma nova família de muitos afetos.

Alunos 1980/1981, da esq para direita; Ana Marcia, Cristina, Paulo Morandi, Margarida, Rita Rocio, Chalhub e Vera Tâmara
Alunos 1980/1981, da esq para direita; Ana Marcia, Cristina, Paulo Morandi, Margarida, Rita Rocio, Chalhub e Vera Tâmara – Amizade e união por um ideal melhor de ensino.
Alunos( 1980/1981) , da Esq para direita: Tamara, Rita Rocio, Luciana Simões, Denise, Márcia Zanotti e Leila Verônica
Alunos( 1980/1981) , da Esq para direita: Tamara, Rita Rocio, Marília Gaigher, Luciana Simões, Denise, Márcia Zanotti e Leila Verônica – Alegria era uma constante

Assim, seguimos ao longo dos períodos letivos nos empenhando para consolidar o curso de Arquitetura e Urbanismo (UFES) junto aos professores, o que notadamente marcou uma fase icônica na memória afetiva de cada um de nós. Uma época, uma história e uma amizade que conferiu uma identidade própria e consolidou os primeiros arquitetos  graduados em terras capixabas, ou seja, novas ideias, planos e projetos com muita criatividade e inovação. Alguns atravessaram para além das fronteiras do Espírito Santo, outros cruzaram mares, edificaram sonhos, e divulgaram o talento capixaba  em outros territórios.

O mundo globalizou, os encontros tornaram-se escassos, as lutas se dissolveram em meio a relações, movimentos e ideologias fragmentárias. A turma se espraiou, mas voltou a se reencontrar para comemorar os anos de formatura na festa ARQ+/- 30, em 2016. Passados quarenta anos, hoje, 5 dezembro de 2019, reuniremos novamente para comemorar não somente uma data, mas um curso que fez história no Espírito Santo: ARQ ± 40. Várias outras turmas graduaram-se com mérito ao longo de todos estes anos. Registro aqui o orgulho de poder novamente compartilhar essas emoções com vocês, os colegas arquitetos, os professores, as famílias e a sociedade capixaba. Grande abraço a todos!

Isabella Batalha Muniz Barbosa (arquiteta urbanista /turma 1980)

Caneca de comemoração 40 anos curso Arquitetura e Urbanismo (1979/2019)
Caneca de comemoração 40 anos curso Arquitetura e Urbanismo (1979/2019)
Professores e ex-alunos do Dept Arquitetura no evento de 40 anos CEMUNI. Esq pra direita; Clara Luiza, Marta Campos, Roberto Simões, Clemir Meneghel, Kleber Frizzera, Augusto Alvarenga.
Professores e ex-alunos do Dept Arquitetura no evento de 40 anos CEMUNI. Esq pra direita; Clara Luiza, Marta Campos, Roberto Simões, Clemir Meneghel, Kleber Frizzera, Augusto Alvarenga

 

 

 

 

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