Desde que as embarcações começaram a naufragar com centenas de imigrantes oriundos do norte da África e, paralelamente, uma imensa legião de refugiados sírios e de outras nacionalidades atravessavam a fronteira do Leste Europeu em direção à Alemanha, que a questão da Imigração se tornou o assunto da vez nos jornais, mídias e redes sociais. Ganhou força especialmente nos últimos dias, diante do endurecimento da política migratória do Governo Trump de tolerância zero, a qual separava as crianças dos pais que tentavam imigrar para os EUA. Até mesmo a Copa do Mundo evidenciou o fenômeno da imigração com a heterogeneidade de raças em times europeus. Hoje, deparo-me com a notícia de que o adolescente  Samon Abul, preso na caverna e único interlocutor da língua inglesa, também é um imigrante refugiado de WA, território não reconhecido como autônomo e que ocupa parte de Mianmar e parte da China. Abul*, desprovido de quaisquer documentos que não lhe conferem direitos no território tailandês, mostrou gestos de humildade e perseverança diante do mundo globalizado.

Imigrantes chegam pelo Mar Mediterrâneo à Itália
Imigrantes chegam pelo Mar Mediterrâneo à Itália

Ante os permanentes conflitos e o desejo por melhores condições de vida nos países mais desenvolvidos, não há perspectivas a  que a intensa imigração reduza. No Brasil, as autoridades não conseguem uma solução a curto e médio prazo que favoreça os centenas de imigrantes venezuelanos e bolivianos que cruzam a fronteira norte do país diariamente. O problema está na pauta do dia e traz vieses de dificeis transposições às nações. Se por um lado, prestam ajuda humanitária em alojamentos temporários, por outro lado, a demora em reconhecê-los como iguais e com a dignidade que merecem, faz com que a paranoia da imigração se estenda ao sistema social como um todo. Para o Estado-nação, tornar-se responsável por uma população com cultura totalmente diversa, e contemplá-la com os serviços de assistência básica à saúde e educação, sem que haja uma contrapartida tangível e imediata, faz com que o evento mundial da Imigração seja um imbróglio.

A imagem dos imigrantes sempre remete à precariedade das condições em que se encontram, ao desconhecido, à pauperização. Essa imagem pejorativa e impregnada de preconceitos, desvaloriza o potencial da sua força de trabalho, mas que por sua vez, torna-se fator estratégico para muitos países que os recebem. Os imigrantes não competem com os cidadãos dos países aos quais imigram na busca por trabalho, mas ajudam no impulsionamento da economia  a partir da espoliação da sua força de trabalho, com empregos informais e precarizados. Sem direitos, o imigrante é mão de obra facilmente descartável. Essa exposição constante às pressões das políticas de fronteiras parece mesmo fazer sucumbir qualquer possibilidade de permanência da autoestima e da autonomia individual do imigrante no país estrangeiro.

Apesar da adoção de políticas duras nas fronteiras dos países centrais, o movimento migratório não cessa. Segundo fonte oficial**, a imigração para os EUA, saltou 92% no semestre em relação ao mesmo período em 2017. No referido país, a brutalidade para com os imigrantes chegou ao ápice com o confinamento de crianças, por assim dizer, uma prática que se assemelha à nazista. Neste contexto, vale lembrar Thomas Hobbes (1588-1679), que no século XVII, atribuiu ao Estado à semelhança do Leviatã, monstro sagrado, capaz do melhor e do pior. A soberania que o Estado exerce não se limita apenas ao território propriamente dito, mas o extrapola. Ainda assim, o imigrante resiste e persiste no seu sonho. Talvez fosse possível compará-lo ao personagem Fausto do poema  Goethe, que se submete a toda sorte de experiências humanas, alegrias e desgraças juntas, assimilando-as ao seu interminável crescimento interior. Para ele, o importante é o processo, até mesmo a destruição do próprio “eu” seria parte integrante do seu desenvolvimento. A tragédia reside na ideia que a catástrofe assim como redime humanamente, politicamente destrói. Essa ambiguidade que Fausto carrega consigo é o próprio dilema da modernidade. Vale lembrar novamente o exemplo do menino da caverna, o refugiado Abul, que da tragédia encontra a simplicidade no gesto “wai”, ao abaixar a cabeça como reverência e agradecimento aos seus. Assim a humanidade aprende com ele. Este sim, é o nosso Fausto, nosso herói contemporâneo.

*Abul, foi acolhido por um casal tailandês aos 7 anos, ao fugir do conflito entre rebeldes do Exército de WA e de tropas Mainmar. Acredita-se que são 400 mil refugiados na Tailândia. Fonte: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2018/07/10/menino-que-falou-ingles-com-mergulhador-em-resgate-e-refugiado-e-vive-longe-dos-pais.html

** Fonte: Serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras dos EUA.

Pesquisa:

https://www.uol.com.br , em 10/07/2018

SAFATLE, Vladimir. O grego e o outro. Folha de SP. São Paulo, 06/07/2018.

Dissertação mestrado “Modernidade e Assimetrias na Paisagem, a fragmentação de ecossistemas naturais e humanos na Baía Noroeste”. (BARBOSA, FAU/USP, 2004)

Imagem destacada: autoria Isabella Muniz. Holanda.

 

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