A polêmica “Linha Verde”.

Venho acompanhando a polêmica gerada em torno da Linha Verde, faixa exclusiva para ônibus do sistema público de transporte, táxis e vans, que foi criada na Av. Dante Micheline, orla de Camburi. Quando inaugurada, houve muita resistência  especialmente por parte dos cidadãos  que transitam diariamente  nos horários de rush na  volta do trabalho para casa. A principal argumentação para contestá-la era o fato de que o trânsito havia piorado causando maiores transtornos e, a faixa exclusiva tinha pouca circulação dos coletivos do transporte público. Já a Prefeitura Municipal de Vitória defende que a Linha Verde dará agilidade aos corredores de ônibus, evitando a lentidão e paradas desnecessárias , assim como também a segurança no embarque e desembarque de passageiros dos coletivos. Diante do impasse, um grupo de moradores ingressou com ação popular na Vara da Fazenda Pública Municipal de Vitória, tendo como base a Lei Federal 12.587/2012 (Política Nacional de Mobilidade Urbana), sob alegação que não havia tido um diálogo prévio com a comunidade. A polêmica ganhou maior repercussão.

Toda mudança, mesmo as mais simples, como por exemplo, a redução de vagas e cobrança do estacionamento, geram resistências iniciais. Com o passar do tempo, observa-se que as pessoas vão se adaptando gradativamente e criam novos hábitos. Há muito que o novo Urbanismo em todo mundo está propagando uma recondução ideológica de se pensar as cidades, de modo a proporcionar maior conforto, encontros, enfim, tornar o espaço urbano um lugar mais aprazível de se viver e morar. Para isso, mudanças no desenho urbano e posturas ideológicas devem ser alcançadas, mesmo que gradativamente. A pioneira da critica à cidade, revendo a questão dos hábitos cotidianos e restrição do uso do automóvel foi Jane Jacobs (1961). Mais recentemente, Jan Ghel(2010) argumenta no seu livro “Cidade para pessoas” que a dimensão humana foi seriamente negligenciada no planejamento urbano. Nesse sentido, referencia-se à cidade de Nova York, “uma cidade de 8 milhões de pessoas, pode ser um grande exemplo de que condições muito melhores podem ser conquistadas quando alguém toma a decisão de se preocupar mais com as pessoas, e menos com carros.” 

Enfim, Vitoria é uma cidade que  pautada por um bom planejamento e concessões dos setores produtivos e da sociedade, poderia alcançar este ideal propagado por Ghel a médio e longo prazo. Nessa perspectiva, a mobilidade é fundamental para  melhor qualidade de vida nas cidades. Então, passa por uma questão ideológica de mudança de hábitos, assim como pesados investimentos no transporte público e em ciclovias, espaços livres de fruição da paisagem. Parcerias público -privadas e recursos de todas as escalas da federação são fundamentais. Quanto à Linha Verde, talvez seja necessário um olhar mais reflexivo por parte da sociedade e da administração municipal na verificação dos gargalos e na promoção de estudos para melhor adaptação do seu funcionamento.

Nessa perspectiva, compartilho aqui e respaldo o texto do arquiteto urbanista Augusto Alvarenga*, que faz a defesa da Linha Verde e argumenta que as pessoas devam mesmo mudar os hábitos e deixem mais o carro em casa, façam rodízio de placas, organizem caronas coletivas, usem mais a bicicleta, uber, táxis. E que isso passe a acontecer já,  e não apenas quando houver melhoria do transporte público. Segue o texto do arquiteto na íntegra:

“A comunidade capixaba só tem a comemorar a volta do funcionamento da Linha Verde. Quando foi implementada membros da associação comunitária de Jardim Comburi se manifestaram contrários a “redução das faixas” destinadas aos veículos. Realmente a implantação de faixas exclusivas de Ônibus e Taxis em qualquer lugar do mundo, vai privilegiar um meio de transporte em detrimento de outro, no caso o transporte individual. Porem é preciso discutir de que população estamos falando, ou seja, que comunidade esta movendo ações judiciais contra uma decisão que pretende privilegiar o coletivo.
Na mesma faixa que circulam automóveis individuais, circula o transporte coletivo, mesmo com a implantação da faixa verde, ainda há mais faixas para o transporte individual que para o coletivo e os números são os seguintes: um ônibus transporta em média 12 pessoas, um automóvel, 1,2 pessoas. O comprimento de um ônibus ocupa o mesmo espaço que 2,4 automóveis, ou seja, com o mesmo espaço de via um ônibus transporta 12 contra 2.8 pessoas em automóveis individuais. Então, volto a perguntar: qual a comunidade a decisão judicial estava protegendo, os privilegiados 2.8 proprietários de automóveis ou os 12 usuários do ônibus? Se considerarmos a hora de pico isso é ainda mais gritante, a média de pessoas por carro não aumenta e nos ônibus vão 40 desconfortáveis passageiros. Desta forma estamos falando de um uso 22 vezes maior de área da via pelos carros em relação aos ônibus. A única critica que faço à Linha Verde é que está apenas em Camburi e não conecta as demais vias, pois essa faixa exclusiva deverias estar em TODOS os principais corredores de transporte coletivo da grande vitoria, não só na Cidade de Vitoria. Recordo a todos que as faixas exclusivas para ônibus fazem parte de planejamento do sistema Transcol desde a sua criação, em 1989, e essa gestão da PMV foi a primeira a iniciar o cumprimento deste projeto. Quanto a critica de que o transito ficará mais engarrafado com a linha verde, essa deveria ser tomada como um elogio, pois esse é um dos objetivos da priorização do transporte publico, tornar mais demorado e caro o uso do individual. Se continuarmos a alargar as ruas toda vez que alguém comprar um carro novo aonde vamos parar? No ritmo atual, em 10 anos teremos o dobro do carro em Vitoria ai sim teremos todas as LINHAS VERMELHAS.” **

 

* Augusto Alvarenga é Arquiteto e Urbanista, professor da UFES, doutor pela Universidade Politécnica da Catalunha.

** Texto publicado também no Gazeta Online:  https://www.gazetaonline.com.br/opiniao/artigos/2018/04/sem-a-linha-verde-mobilidade-urbana-nao-avanca-1014126016.html

 

 

 

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